"No próprio dia da batalha, as verdades podem ser pinçadas em toda a sua nudez, perguntando apenas;
porém, na manhã seguinte, elas já terão começado a trajar seus uniformes."

(Sir Ian Hamilton)



segunda-feira, 24 de abril de 2017

EDITOR DO BLOG PARTICIPA DE PAINEL SOBRE AS INVASÕES HOLANDESAS NO COMANDO MILITAR DO NORDESTE

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O Comando Militar do Nordeste, com sede no Recife, promoveu o painel "Guararapes: berço da nacionalidade brasileira", com a participação de militares, professores e acadêmicos das universidades de Pernambuco.

Na oportunidade, o editor do Blog Carlos Daroz-História Militar apresentou a conferência "As invasões holandesas a as batalhas dos Guararapes".  A seguir, algumas imagens do painel.

















sábado, 22 de abril de 2017

IMAGEM DO DIA 22/4/2017 - DIA DA AVIAÇÃO DE CAÇA

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O Dia da Aviação de Caça no Brasil é comemorado neste 22 de abril, data em que o primeiro Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira realizou o maior número missões na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Foram 44 missões de guerra e mais de 100 alvos destruídos. 

Aos caçadores de ontem e de hoje, a homenagem do Blog Carlos Daróz - História Militar.

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sábado, 15 de abril de 2017

quinta-feira, 13 de abril de 2017

ASPECTOS GEOGRÁFICOS NA OPERAÇÃO BARBAROSSA

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Por Jamicel Silva

Em 22 de junho de 1941, ao iniciar a Operação Barbarossa, Adolf Hitler rompia o pacto de não-agressão com a União Soviética e invadia aquele território que, no passado, mostrou-se inóspito a conquistas militares. Durante toda a campanha, que durou até dezembro daquele ano, aspectos geográficos influenciaram decisivamente na definição daquela fase da guerra, que impactou nos resultados finais do conflito, em 1945.

O início da operação foi descrito por Churchill (1874 – 1965) da seguinte maneira:

A hora havia soado. Às 4h desse mesmo 22 de junho de 1941, Ribbentrop entregou uma declaração formal de guerra ao embaixador russo em Berlim. Ao raiar do dia,Schulenberg apresentou-se a  Molotov no Kremlin. Este ouviu em silêncio a declaração lida pelo embaixador alemão, e em seguida comentou: “É a guerra. Vossos aviões acabaram de bombardear umas dez aldeias desprotegidas. O senhor acha que nós merecíamos isso?” (CHURCHILL, 2005, p. 530).

A partir daí, o que se observou foi uma massa de veículos militares e tropas deslocando-se rumo ao Leste, em três frentes de ataque: Leningrado, no norte; Moscou, no centro, e no sul rumo aos campos de petróleo no território da atual Ucrânia, já que as reservas dessa fonte de energia na África foram relegadas a segundo plano, mesmo com as vitórias de Rommel naquele teatro, decisão influenciada pela convicção de Hitler da necessidade de derrota do bolchevismo russo (FILHO, 2015).

O avanço alemão foi realizado em três direções, cada qual apoiada por um grupo de exércitos. No início a operação foi bem sucedida, mas, com a chegada de rigoroso inverno, a situação mudou completamente.


A observação do território soviético no local da campanha alemã permite compreender que as grandes extensões de planícies foram propícias ao avanço rápido das divisões mecanizadas, que permitiu o sucesso inicial da Operação Barbarossa. Em decorrência das campanhas da Polônia e França, com a Inglaterra encurralada, após a retirada de Dunquerque, Hitler acreditou que o avanço na Rússia seria breve.

A convicção de Hitler começou a ser colocada em xeque com a chegada do rigoroso inverno russo e, como em outras campanhas do passado, fatores climáticos influenciaram no resultado das ações militares. Como se sabe, Napoleão também foi derrotado nesse mesmo território, durante avanço, com o clima influenciando diretamente no desgaste das tropas da Grande Armèe, alcunha pela qual ficou conhecido o exército francês da época.

Hitler, mesmo ciente das dificuldades dos exércitos alemães, em decorrência do clima rigoroso, que debilitou a capacidade operacional, não permitiu a rendição dos generais e insistia que a resistência durasse até o limite das forças. Com o passar dos combates, a situação das tropas só piorava e a influência do clima se fazia sentir. Aliado ao clima, o relevo e vegetação potencializavam a derrocada das tropas, com o congelamento do solo que dificultava os deslocamentos, causava congelamento de membros, criava escassez de água e alimentos, além de tornar os equipamentos militares inoperantes, como, por exemplo, divisões blindadas que tiveram veículos militares destruídos pelo congelamento de componentes.

Hitler negligenciou os ensinamentos da História Militar e, como ocorreu com Napoleão, fracassou em sua tentativa de conquistar a Rússia.

A análise da Operação Barbarossa demonstra a importância de se levar em conta aspectos geográficos no estudo da História Militar, pois é um dos fatores decisivos no resultado de campanhas militares, como ficou demonstrado com a influência do inverno na sorte das tropas alemãs, na Segunda Guerra Mundial, já que essa foi considerada a primeira derrota de Hitler. A partir dela, os exércitos soviéticos avançaram rumo à Alemanha, com a abertura de um novo front no Leste, que deu tranquilidade aos outros Aliados para atuarem em regiões a oeste e sul da Europa, além da África e Ásia, com destino ao centro do Reich.

Aliadas à importância dos aspectos geográficos, as estratégias e táticas militares também são essenciais para o entendimento do sucesso de operações, pois são levados em conta o terreno, clima e o relevo no planejamento dos comandantes militares. No caso da Operação Barbarossa, a estratégia dos generais soviéticos de recuo das tropas com o intuito de esperar o inverno foi decisivo, pois com tropas mais adaptadas e melhor equipadas a esse clima, o enfrentamento do inimigo foi facilitado como se vê no rápido contra-ataque realizado com a  expulsão das tropas nazistas daquele território.


Referências

- CHURCHILL, Winston S. Memórias da Segunda Guerra Mundial. 3.ed. v.1. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2005, 534 p.

- FILHO, Cyro Rezende. Rommel: a raposa do deserto. São Paulo: Contexto, 2015, 206 p.

Fonte: Werra


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sábado, 8 de abril de 2017

CHINESES SE ENFRENTAM EM XUZHOU (1948-1949)

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Em 6 de novembro de 1948 começou a batalha decisiva de Xuzhou, na qual os comunistas chineses derrotaram os nacionalistas. Os liderados de Mao Tsé-tung vinham do norte, pressionando o Kuomintang cada vez mais para o sul.


Por Thomas Bärthlein


Na primavera setentrional de 1949, as tropas de Mao Tsé-tung conquistaram quase todo o território continental da China. Cerca de seis meses antes, elas não tinham sequer uma cidade importante sob o seu controle. Mas logo tinham conseguido impor-se através da vitória na batalha de Huaihai, nas proximidades da cidade de Xuzhou, um entroncamento ferroviário de grande importância estratégica na China central. A batalha começou no dia 6 de novembro de 1948 e durou até 10 de janeiro de 1949.

Esta foi a primeira batalha campal desde o início da guerra civil em 1946. Até então, os comunistas haviam empregado uma tática de guerrilha no interior do país. Em Xuzhou, participaram da batalha cerca de 600 mil soldados de cada lado. No final, as tropas de Chiang Kai-shek foram derrotadas de forma aniquilante.

Só existem especulações sobre o número de mortos, feridos e desertores: os arquivos chineses continuam até hoje fechados para a pesquisa por parte dos historiadores. Em janeiro de 1949, os comunistas conquistaram Pequim e Tientsin no norte da China; em abril, cruzaram o rio Yang-tsé, em direção ao sul. O exército de Chiang Kai-shek estava derrotado.

O líder comunista Mao Tsé-tung


Toda a história remontava à década de 20. Na época, Chiang Kai-shek já tinha lutado contra os comunistas. Eles controlavam grandes áreas, mas tiveram de retirar-se para as regiões afastadas do interior, promovendo a famosa "longa marcha".

Veio então a invasão japonesa. Entre 1937 e 1945, as tropas japonesas assolaram a China. Os comunistas e o Kuomintang de Chiang Kai-shek formaram uma "frente de unidade nacional" para combater os japoneses.

Para o sinólogo Thomas Kampen, o equilíbrio na China foi decisivamente abalado durante o período da ocupação japonesa: "Sem a invasão dos japoneses, Chiang Kai-shek teria podido derrotar os comunistas na década de 30. Ele teria podido investir todas as forças nessa luta e teria alcançado o seu objetivo. É preciso levar em conta, por exemplo, que a 'longa marcha' de 1934/35 começou com cem mil comunistas e terminou com dez mil – os comunistas estavam praticamente derrotados!"


Duas consequências

"O ataque japonês resultou em duas coisas: em primeiro lugar, Chiang Kai-shek não pôde mais concentrar-se na luta contra os comunistas; e em segundo lugar, os comunistas puderam fazer um longo trabalho clandestino nas regiões onde estava o exército japonês. Pois o problema para os japoneses era de que não dispunham de tanta tropa, para controlar todo o território. Eles controlavam principalmente as metrópoles e as linhas ferroviárias. E os comunistas podiam fazer a sua mobilização nas áreas rurais."

Isso valeu também na região de Xuzhou, por exemplo. Os comunistas tinham apoio nos povoados da região, pois tinham conquistado prestígio durante a luta contra os invasores japoneses. Já as tropas de Chiang Kai-shek tinham se retirado durante esse período. Thomas Kampen: "A Segunda Guerra Mundial terminou com a derrota do Japão. Mas não se pode dizer que os chineses tenham derrotado os japoneses. O motivo da derrota foi, antes, a bomba atômica etc. Ou seja: um grande problema era o fato de Chiang Kai-shek, seu partido e seu exército serem acusados de não ter combatido os japoneses com determinação. E, por essa razão, eles tinham uma péssima imagem."

Tropas comunistas chinesas em ação na região de Xuzhou


Além disso, os soldados de Chiang Kai-shek estavam pouco motivados nessa guerra civil. Muitos não sabiam o porquê da luta contra os comunistas. O que não era de se admirar, pois muitos deles eram camponeses recrutados compulsoriamente, segundo esclarece Thomas Kampen: "Eles não ingressaram voluntariamente no exército, mas foram sequestrados e então incorporados à tropa. Por isso, muitos deles também desertaram".

"Entre os comunistas, uma das prioridades era motivar os camponeses, fazendo com que cooperassem voluntariamente. Na verdade, os comunistas não tinham o poder necessário para fazer um recrutamento compulsório."

Os camponeses – na época, 90 por cento da população chinesa – deveriam sustentar a Revolução, segundo a teoria de Mao Tsé-tung. De fato, num trabalho minucioso de anos de duração, os comunistas conseguiram convencer muitos camponeses a dar apoio às suas reivindicações de reforma agrária.

A longo prazo, a luta pelo poder foi decidida através da péssima imagem do governo e da excelente imagem dos comunistas, tanto em questões nacionais quanto em questões sociais.

O que causa admiração é que os comunistas tenham conseguido enfrentar com êxito as tropas do Kuomintang, equipadas com armamentos americanos. Nem mesmo os soviéticos ajudaram os comunistas chineses com o fornecimento de armas. Pois, tradicionalmente, Moscou mantinha um bom relacionamento com Chiang Kai-shek.


Fonte: DW

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terça-feira, 4 de abril de 2017

LANÇAMENTO DO LIVRO "O BRASIL NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL - A LONGA TRAVESSIA"

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Realizamos, em 29 de março de 2017, o lançamento do nosso novo livro O BRASIL NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL - A LONGA TRAVESSIA, em uma tarde memorável no belíssimo auditório do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica.

O meu agradecimento de coração ao INCAER, na pessoa dos Brigadeiros Pohlmann e Terroso, e a todos os que prestigiaram o evento e nos honraram com suas presenças.

A seguir, fotos do lançamento: 
















quarta-feira, 29 de março de 2017

PERSONAGENS DA HISTÓRIA MILITAR – GENERAL JOSÉ DIAZ

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* 17/10/1833 – Cerro Verá-Paraguai
 

+ 07/02/1867 – Rio Paraná


José Eduvigis Díaz Vera nasceu no dia 17 de outubro de 1833 na cidade de Cerro Verá, leste de Pirayú, no departamento de Paraguarí, no Paraguai, filho de Juan Andrés Díaz e Dolores Vera. Em 1852 juntou-se à milícia paraguaia e dez anos depois tornou-se tenente em um batalhão de polícia. Organizou o 40º Batalhão da Polícia, alcançando finalmente o posto de sargento-mor.


Durante a Guerra da Tríplice Aliança, distinguiu-se primeiro nos combates em todo o rio Paraná, em Corrientes, na primavera de 1866. Díaz foi o herói da Batalha de Curupaiti, em 22 de setembro de 1866, onde infligiu uma constrangedora derrota às forças aliadas. 

Em 7 de fevereiro de 1867, apenas quatro meses depois da grande vitória, morreu em uma missão que lhe foi confiada por Francisco Solano López. A canoa na qual fazia reconhecimento da esquadra brasileira foi atingida por fogo de artilharia, ferindo-o com gravidade. Sua perna foi amputada pelos médicos, mas eles não puderam salvá-lo. Uma hora antes de sua morte, foi promovido ao posto de general.


Além da batalha de Curupaiti, Díaz participou das batalhas de Corrales, Estero Bellaco, Tuiuti e Boquerón. Seu caixão foi levado para Assunção, onde a cidade acompanhou-o a seu lugar de descanso, no bairro Recoleta. Em 1939, os restos mortais de Díaz foram depositados em uma urna no Panteão dos Heróis,  junto com os de Carlos Antônio López.


quinta-feira, 23 de março de 2017

ACORDO DE CESSAR-FOGO SELA O FIM DO IMPÉRIO AUSTRO-HÚNGARO

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O Estado criado pela dinastia dos Habsburgos no sudeste da Europa desintegrou-se no final da 1º Guerra Mundial. Em 3 de novembro de 1918 foi assinado o acordo de cessar-fogo, selando o fim do Império Austro-húngaro. 


Por Rachel Gessat

O atentado contra o príncipe herdeiro austríaco Francisco Ferdinando fora a causa imediata para a deflagração da Primeira Guerra Mundial em 1914. Mas o conflito acabaria levando à desestruturação do Estado austríaco.

No começo da Primeira Guerra Mundial, a Áustria-Hungria ainda era um império com uma imensa área territorial: do Lago de Constança à Transilvânia, da Boêmia à Bósnia. Mais de 52 milhões de pessoas viviam no país multiétnico, cuja capital era Viena. No final da guerra, restou um pequeno Estado alpino, uma república com seis milhões de habitantes.

Com tal estrutura multiétnica, a Áustria não podia ser homogênea, nem estava livre de tensões internas antes da Primeira Guerra Mundial.

O tratamento desigual dado às diversas províncias e nacionalidades levou frequentemente a conflitos e movimentos de autonomia, em especial nos Bálcãs, onde a Áustria havia anexado a Bósnia-Herzegovina em 1908. Mas foi a guerra que liberou inteiramente tais forças centrífugas, que levaram ao completo desmembramento do Império Austro-húngaro.

Em maio de 1915, a Itália abandonou a sua neutralidade, juntando-se aos países da entente cordiale, a Inglaterra, a França e a Rússia. Com isto, a Áustria passou a lutar na frente sul não apenas contra a Sérvia, mas também contra a Itália: uma guerra de montanha extremamente difícil, em especial na região do Tirol do Sul (hoje, para os italianos Alto Ádige).


Fome, doenças e rebeliões

Já em 1916, a situação de abastecimento no império dos Habsburgo tornara-se catastrófica. Apesar de todas as medidas para a produção agrária de emergência, o governo não conseguiu impedir que a subnutrição e as enfermidades aumentassem cada vez mais entre a população civil. Ao lado das rebeliões por motivo econômico, também as tensões por razões políticas ou nacionalistas tornaram-se frequentes.

No dia 21 de outubro de 1916, o primeiro-ministro conservador Karl von Stürgkh foi assassinado pelo filho de Viktor Adler, o chefe dos social-democratas austríacos. No mesmo ano, morreu o imperador Francisco José, que personificava a tradicional monarquia austro-húngara. 

Ele havia reinado durante mais de 60 anos, mantendo o controle sobre as ações governamentais. Seu sucessor foi o sobrinho Carlos, a respeito de quem o primeiro-ministro de então tinha uma opinião arrasadora: "O imperador Carlos tem 30 anos de idade, uma aparência de 20, e fala como uma criança de 10 anos." Jovem, inexperiente e avesso a reformas, Carlos I não conseguiu impedir a desagregação do seu império.

O jovem imperador Carlos I não conseguiu impedir a desintegração do seu império


A partir de 1918, começaram a surgir greves e rebeliões em todas as partes do país. Foram registradas deserções em massa, principalmente entre os integrantes das minorias nacionais.


Manifesto da reforma chega tarde demais

Em outubro de 1918, foi formado em Zagreb (Croácia) um Conselho Nacional Sul-eslavo, que logo anunciou a unificação dos territórios sul-eslavos com a Sérvia e Montenegro. Em Viena, constituiu-se uma Assembleia Nacional provisória para a "Áustria alemã" e, em Praga, foi proclamado o Estado tchecoslovaco.

Em 16 de outubro, Carlos 1º ainda tentou impedir uma desintegração do seu império, através da publicação de um manifesto de reforma. Mas já era tarde demais – a autonomia sob a coroa vienense já não era mais uma opção aceitável para as províncias.

Depois do fracasso da última ofensiva militar em Piave, na Itália, a monarquia austro-húngara estava à beira da derrocada. Em fins de outubro começaram as negociações sobre um cessar-fogo. As condições impostas pela entente eram praticamente as de uma capitulação: "Retirada do Tirol até o Passo de Brennero e do Vale do Puster até Toblach, retirada do planalto norte-italiano, da Ístria incluindo Trieste, da Dalmácia e todas as ilhas no Mar Adriático, liberdade de ação para as tropas aliadas em território austríaco, desarmamento de 20 divisões, entrega dos equipamentos bélicos da metade da artilharia".

Após longa hesitação e por falta de alternativa, a delegação austríaca assinou o tratado de cessar-fogo em 3 de novembro de 1918. Com ele ficou selada a desagregação definitiva do tradicional Império do Danúbio.

Fonte: DW


segunda-feira, 13 de março de 2017

LANÇAMENTO DO NOSSO LIVRO - "O BRASIL NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL - A LONGA TRAVESSIA"

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Caros amigos e amigas,

No próximo dia 29, no Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica, ministrarei a palestra VOANDO NA GRANDE GUERRA: OS AVIADORES BRASILEIROS NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL, que abordará a experiência de nossos aviadores navais (e um do Exército) em 1918 no contexto da guerra.

Na oportunidade também lançaremos o nosso livro O BRASIL NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL - A LONGA TRAVESSIA, publicado pela Editora Contexto.
Sua presença será uma honra para mim. Um abraço e até lá.






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quinta-feira, 9 de março de 2017

DIA INTERNACIONAL DA MULHER - “QUERIDA, VOCÊ DERRUBOU UM BOMBARDEIRO HEINKEL!”

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Em ‘Defendendo a Pátria’, Lyuba Vinogradova narra a corajosa luta das aviadoras soviéticas contra os nazistas e contra o machismo


Por Jacinto Antón

Mulheres que voam, que combatem, que vencem e que caem, alvejadas, queimadas, destroçadas, vítimas inclusive da “pior das mortes”: precipitar-se do céu sem paraquedas, depois de saltar de seu avião em chamas. O mundo heroico, vertiginoso e terrível da aviação de guerra, no feminino. Em Zashchishchaya Rodinu (“defendendo a pátria”, inédito no Brasil), a pesquisadora Lyuba Vinogradova (Moscou, 1973), colaboradora habitual e prestigiosa dos historiadores Antony Beevor (que assina o prefácio) e Max Hastings, traça, a partir de fontes documentais originais e depoimentos em primeira mão, a grande aventura das aviadoras soviéticas da II Guerra Mundial. Narra essa história com uma voz de mulher, atenta a detalhes comovedores que costumam ser ignorados, como a separação das famílias, a dificuldade de contar com roupa adequada – inicialmente, recebiam trajes masculinos, incluindo cuecas –, as lágrimas quando suas tranças eram cortadas, o assédio e os gracejos dos colegas homens, geralmente embriagados de vodca, a falta de acesso a anticoncepcionais (Vinogradova descreve uma cena em que as aviadoras observam com inveja um preservativo capturado do inimigo, uma raridade na época) ou a confecção de lingeries com a seda dos paraquedas de aviadores alemães abatidos. Ficamos imaginando como isso deveria ser humilhante para os pilotos nazistas. Ser derrubado por uma mulher já é duro, diriam os machões da Luftwaffe, mas daí a fazerem calcinhas com o seu equipamento...

“Os alemães não tinham mulheres como combatentes em seu exército, para não falarmos de pilotos”, conta Vinogradova ao EL PAÍS. “Naturalmente, as aviadoras despertavam muita curiosidade neles. No entanto, as que caíam como prisioneiras eram tratadas com enorme dureza.” Para começar, despiam-nas para comprovar o gênero. Quando Lina Smirnova foi abatida, conta a autora, deu um tiro em si mesma antes que pudesse ser capturada.


A aviadora russa Marina Raskova

A emoção das vitórias era semelhante à dos homens, mas às vezes expressa de modo peculiar. “Você derrubou um Heinkel, querida!”, anunciou uma mecânica a Lera Khomyakova quando esta pousou após um combate. Imediatamente, as outras moças em terra a rodearam e a cobriram de beijos. A aviadora foi derrubada pouco depois disso. Seu corpo foi encontrado em um campo de girassóis.

A luta contra o machismo dentro das suas fileiras era tão dura para as aviadoras quanto a própria guerra contra os alemães? “Em comparação à maioria das mulheres no Exército soviético, que constantemente sofriam assédio sexual e às vezes violência sexual, as aviadoras eram um grupo privilegiado. O assédio ostensivo não era tolerado. Entretanto, havia muita discriminação. Os homens se apropriavam dos seus caças, menosprezavam as aviadoras, chamavam-nas de ‘bonecas’. Um exemplo clássico são as exclamações dos pilotos homens no campo perto de Stalingrado quando foram informados de que um regimento de bombardeio feminino chegava: ‘Protejam-se, tem umas meninas tentando aterrissar!’. A grande aviadora Raisa Belyaeva, que havia participado de apresentações aéreas antes da guerra, precisou escutar o comandante do regimento de caças onde combatia lhe dizer: ‘Não quero enviar você em missão, você é muito bonita’, o que, obviamente, ela encarava como um insulto. As mulheres, que muitas vezes tinham mais experiência de voo que seus camaradas masculinos, precisavam provar constantemente suas habilidades e sua coragem.” Paulatinamente, dando o sangue, conquistaram o respeito.

A URSS mobilizou suas mulheres na luta de vida ou morte contra os nazistas, de uma forma que nunca ocorrera antes nem voltou a ocorrer depois. Quase um milhão de soviéticas engrossaram as fileiras do Exército Vermelho, em todos os postos: sapadoras, tanquistas, franco-atiradoras (tema do próximo livro de Vinogradova), operadoras de metralhadora... Ao todo, 92 delas foram condecoradas como Heroínas da União Soviética, sendo 50 postumamente. As soviéticas foram as únicas mulheres do mundo a pilotarem aviões em missões de combate naquele sangrento conflito, enfrentando de igual para igual em numerosas ocasiões os ases da Luftwaffe de Hitler, aos quais impunham surpresas às vezes letais.


O frágil e obsoleto Polikarpov Po-2 foi a aeronave mais utilizada pelas aviadoras russas


Quando vejo um avião com as cruzes negras e a suástica na cauda, tenho um só sentimento: ódio; essa emoção faz com que eu aperte ainda mais firmemente o disparador das minhas metralhadoras”, dizia a frágil e minúscula – porém corajosa e vital – Lilya Litvyak, conhecida como Garota Vingadora e Lírio Branco de Stalingrado e Kursk, a quem era atribuído o abate de um grande piloto alemão, que ficou perplexo ao ser apresentado à inimiga que o havia derrubado. Dizem que tentou beijar-lhe a mão, mas Vinogradova garante que isso já é invenção da propaganda oficial. Litvyak, a mais famosa aviadora de caça, com 12 abates confirmados, desapareceu durante uma missão em agosto de 1943, aos 21 anos, no comando de seu Yak-1, o número 18, qual uma Saint-Exupéry no feminino, ou uma Amelia Earhart fardada. Seus restos só seriam encontrados em 1979, em parte por causa da roupa íntima – incluindo um sutiã feito com seda de paraquedas. Estava claro que não se tratava de um piloto qualquer.

Litvyak realmente estava à altura da sua lenda? “Era pequenina e muito bonita, com olhos verdes, um cabelo maravilhoso e ótimo tipo. Era uma grande bailarina, adorava roupas bonitas e flertava com os pilotos jovens. Era estilosa. Como muitas outras, queria ser boa piloto sem deixar de ser uma mulher atraente. E ao mesmo tempo tinha muitíssimo caráter. Tinha a coragem de um demônio audacioso.

A história favorita de Vinagradova envolve Litvyak. “Numa ocasião, após um combate, fez um pouso forçado num terreno com mato muito alto. Dois soldados soviéticos correram para resgatar o piloto. Não o encontravam. Então escutaram a voz aguda de uma garota: “Eu sou o piloto’. Lilya era tão baixinha que não conseguiam vê-lo no mato crescido.

Litvyak, segundo Vinogradova, era uma mulher briosa. Foi punida várias vezes por desobediência e comportamento indecoroso. Tornou-se amante do ás da aviação Salomatin, também piloto de caça, com quem voava em dupla e que caiu pouco antes dela, num caso de “vandalismo acrobático”.

Como eram o amor e o sexo para essas meninas aviadoras? “Eram muito jovens e, no começo, o estado de ânimo dominante era de que ‘a guerra não é lugar para romances’. Depois, com o confronto se prolongando, elas perceberam que não podiam esperar o seu fim para quer a vida recomeçasse, porque, naqueles momentos, a guerra era a sua vida e era bastante possível que não houvesse um ‘depois’, já que tantas delas estavam morrendo. Muitas já voltaram da guerra casadas e várias outras perderam seus companheiros em combates”. A autora menciona vários casos, e pelo menos um relacionamento homossexual.


A capitão de aviação Masha Dolina, do regimento de bombardeio pesado 587, em 1941.

Vinogradova destaca que as mulheres da aviação da URSS no segundo confronto não só lutaram no comando de caças e bombardeiros e foram tripulantes, observadoras, radiotelegrafistas ou membros da artilharia, como também participaram das equipes em terra atuando como mecânicas, fornecedoras de munição ou de combustível. Com efeito, o Exército Vermelho teve em sua força aérea três regimentos compostos unicamente por mulheres: um de caça (586), outro de bombardeio pesado (587) e um terceiro de bombardeio noturno (588). Este último era o das Bruxas da Noite. “Diz a lenda que esse nome foi dado pelos alemães, que eram atacados por elas com seus frágeis aviõezinhos, os pequenos biplanos de treinamento U-2 (Po-2), de compensado, que, por causa de seu ruído específico, eram chamados de máquinas de costura. Mas eu acredito que foram elas mesmas que se autodenominaram assim. Elas são admiráveis, pois era preciso ter muita coragem para combater nesses aparelhos, que se incendiavam facilmente. Muitas delas tiveram mortes terríveis. De modo geral, entre as mulheres pilotos e navegadoras que lutaram nas primeiras fileiras, as baixas foram enormes. Talvez um terço do total. É difícil quantificar. No regimento de bombardeio noturno, onde as baixas eram cobertas pelo próprio pessoal, as mortas e feridas chegaram a 50% dos efetivos iniciais”.

As aviadoras tinham diversas origens: estudantes, camponesas, operárias. Muitas delas haviam se formado em escolas de aviação do Konsomol, a organização das juventudes comunistas. Para outras, tal como ocorria no caso de seus colegas masculinos, a guerra fornecia a oportunidade de realizar o sonho de voar. Fizeram isso sob condições dificílimas, morrendo em acidentes e combates. Em seu livro A guerra não tem rosto de mulher, a prêmio Nobel Svetlana Alexiévich reporta o testemunho de uma das Bruxas da Noite, Aleksandra Popova – falecida aos 91 anos de idade em 2013 -, segundo o qual algumas deixavam de menstruar por causa do estresse. Mas, como testemunhou uma outra aviadora, a capitã Klaudia Térejova: “Nós, meninas, voávamos e derrubávamos os ases da aviação! Os homens nos observavam com perplexidade. Nos admiravam”.

Na galeria das aviadoras, destaca-se a grande Marina Raskova, que já era uma pioneira da aviação, criadora dos regimentos femininos e que, além disso, atuava como agente secreta da NKVD, dirigida por Beria. Seu lema era: “Podemos fazer tudo”.

O que aconteceu com as sobreviventes depois da guerra? “Foram muito poucas as que permaneceram no exército. Na verdade, elas só haviam sido recrutadas para a guerra. Muitas que já eram aviadoras civis voltaram à sua profissão. Mas é difícil combinar a vida de piloto com a criação de uma família. As poucas que continuaram na força aérea foram desestimuladas por seus superiores: a pátria precisara delas durante a guerra, lhe diziam, mas agora elas precisavam partir e deixar o trabalho dos homens para os homens”.

As aventuras das aviadoras são lembradas hoje em dia na Rússia? “Os russos, de um modo geral, têm muito orgulho de seus heróis e heroínas da Grande Guerra patriótica. No entanto, muitos deles, ou a maioria, ainda prefere a versão da propaganda soviética às versões mais verdadeiras. As mulheres pilotos sobre as quais escrevi não são muito conhecidas, com exceção das mais famosas, como as Bruxas da Noite”. Atualmente, segunda Vinogradova, não há nenhuma dessas valentes aviadoras ainda viva. “Quando comecei a fazer as entrevistas, em 2009, ainda consegui falar com algumas. Tinham muito orgulho daquilo que haviam feito, e eu tinha muito orgulho delas!”.

Qual foi a sua contribuição concreta para o esforço de guerra e para a vitória? “Um regimento de aviação, mesmo que contasse com apenas dez pilotos, era algo bastante valioso na frente de combate do Leste: o Exército Vermelho padecia de uma grande escassez de aviões e de pilotos experientes. Os três regimentos femininos foram, sem dúvida, muito úteis nesse terreno. Desempenharam, além disso, um papel importantíssimo no sentido de elevar o moral na luta tanto entre mulheres soldados como entre as civis, que carregavam um peso enorme em suas costas”.

Fonte: El País